Irmandade do Glorioso São Roque dos Carpinteiros de Machado

Brasão

Um escudo bipartido, tendo à direita o escudo de Portugal e à esquerda um cão com o pão na boca, olhando para um bordão de peregrino encimado por um chapéu com três conchas e tendo pendente uma cabaça.

A Irmandade do Glorioso São Roque dos Carpinteiros de Machado é incorporada por fusão (respeitando o espírito do Cânone 121 do Código de Direito Canónico) na Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa (Estatutos aprovados em 7 de Fevereiro de 2011).

A Mesa Administrativa da Irmandade de São Roque inicia os contactos com oficiais da Marinha com o intuito de reavivar a história e a importância da antiga Irmandade do Glorioso São Roque dos Carpinteiros de Machado, sediada na Capela de São Roque do Arsenal.

Um dos objectivos passa por identificar afinidades de interesse e de cumplicidades com estes homens cristãos (ligados à Marinha) e avaliar a possibilidade de com a sua colaboração, interesse e empenho, reavivar a Irmandade do Glorioso São Roque dos Carpinteiros de Machado, que não tinha sido extinta pela competente Autoridade Religiosa, na década de 1920.

Assim, e com a sugestão do Patriarcado é proposta a integração por fusão da extinta Irmandade do Glorioso São Roque dos Carpinteiros de Machado na Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa, a 10 Abril de 2010.

A Capela é reaberta após obras de conservação realizadas pelos operários do Arsenal da Marinha e as solenidades são presididas pelo Arcebispo de Mitilene, D. Manuel Trindade Salgueiro.

De 19 a 21 de Janeiro, na Casa de Despacho, decorre o leilão dos bens, organizado pela empresa Liquidadora das Chagas. Alguns dos bens são incorporados (por aquisição) no Museu Nacional de Arte Antiga, designadamente: uma Cruz do século XVII; Santo Cristo em metal dourado com cruz engastada em madre-pérola; duas cortinas de porta, com as armas bordadas e duas murças de seda preta com as armas da Irmandade.

É constituído o processo documental para pedido de autorização ao Governo, para se proceder à venda de todo o mobiliário e realizar a fusão com a Caixa de Pensões do Arsenal (Acta de 27 de Abril de 1928, pp.14). A 16 de Junho é assinado o Despacho do Governo para a fusão da Irmandade com a Caixa Pensão Arsenal da Marinha.

O visitador Francisco Maria Frazão sugere que para “cumprimento com o referido Decreto deveríamos transitar com o nosso capital em inscrições, bem como pensionistas, e sócios que desejam transitar, nas condições da primeira caso estabelecidas com a referida caixa, e depois da venda se executaria o que para tal fim está estabelecido na segunda e terceira base, consoante o rendimento da venda”. Os presentes na reunião decidem que “tudo transitasse depois de tudo vendido”, vontade também manifestada pelo Tesoureiro a quem, pela responsabilidade do seu cargo, competia encerrar todas as contas. O dinheiro existente no chamado Cofre dos Sinos era destinado ao pagamento das jóias dos sócios que transitassem desta Irmandade para a Caixa de Pensões, e o remanescente seria englobado no apuramento da venda e saldo existentes, e aplicado nos fins previstos nas bases da fusão. Esta deliberação é aprovada pela Mesa da Assembleia-Geral, em que assistiu o Presidente Cândido António de Carvalho.

Assinam esta Acta:

  • Presidente - Luís augusto Pereira
  • Tesoureiro - Luís Baptista
  • Visitadores - Alfredo Lopes da Silva, Marcolino Nepomoceno Motta
  • Secretário - Júlio Alves

A Mesa é constituída por:

  • Presidente - Luís Augusto Pereira
  • Tesoureiro - Luís Baptista
  • Visitadores - Alfredo Lopes da Silva, Francisco Maria Frazão, Marcolino Nepomoceno Motta, Álvaro da Silva Neto
  • Secretario - Júlio Alves

Os corpos gerentes da Irmandade dos Carpinteiros Navais aprovam a fusão da Irmandade com a Caixa de Pensões do Arsenal da Marinha (Diário da República de 22 de Junho de 1928), sendo extinta a Irmandade dos Carpinteiros Navais, com a autorização para serem leiloados os bens.

A Mesa era constituída por:

  • Presidente - Luís Augusto Pereira
  • Tesoureiro - Guilherme Júlio d’Almeida
  • Visitadores - Alfredo Lopes da Silva, Francisco Maria Frazão, Luís Baptista, Álvaro da Silva Neto
  • Secretario - Júlio Alves

A 27 de Outubro, a direção é constituída por:

  • Presidente - Guilherme Augusto de Paiva
  • Tesoureiro - Guilherme Júlio d’Almeida
  • Visitadores - Eduardo da Silva Pinheiro, Joaquim António Soares, Jaime Gomes, João Maria Teles Júnior
  • Secretario - Júlio Sena

O Governo Civil aprova os Estatutos da Irmandade dos Carpinteiros Navaes, erecta na sua antiga Ermida de S. Roque no Arsenal da Marinha (3 de Abril).

O texto não faz qualquer referência ao culto a São Roque e a Irmandade passa a ser uma associação de socorros mútuos, perdendo o seu carácter religioso. 

Reforma dos Estatutos com a mudança de denominação para Irmandade dos Carpinteiros Navais. A Comissão de Reforma é constituída por: Sebastião Nunes, Alexandre José Carreto, Cândido António de Carvalho, Guilherme Augusto Paiva, José dos Santos da Cruz. 

O Oficio da Lei da Separação do Estado da Igreja (15 de Nov. 1911) refere “que só poderia ficar a subsistir em cada Freguesia uma Corporação com encargo do culto religioso”. No dia 25 de Novembro, realiza-se uma reunião, para a qual tinham sido convocadas outras Corporações, Irmandades e Ordens Terceiras, com o objectivo de decidirem quem ficava com o encargo do culto, em cada Freguesia do 2.º Bairro.

Perante a Comissão, a Mesa da Irmandade apresenta um projeto para reforma dos Estatutos (como é imposto pelo decreto-lei de 20 de Abril de 1911).

Em 22 Agosto de 1911 é realizado o Auto de Diligência à Capela de S. Roque, estando presentes o Juiz, Alexandre José Canuto; Secretário, José dos Santos Cruz Dias, e o Procurador, Henrique Fernando Bastos, que declaram que a Irmandade estava “Legal, com Compromisso aprovado por Carta Régia, de 7 de Abril 1865 e Alvará passado pelo Governo Civil, de 7 Março de 1876”. A Comissão Concelhia do Inventário reconhece improcedente o arrolamento dos bens da Irmandade pelo que dá por terminada a diligência.

 

 

A 7 de Agosto de 1911, a Comissão Revisora apresenta à Mesa, os trabalhos para a elaboração do texto dos novos Estatutos. Dez dias depois, é apresentado em reunião de Junta Grande o relatório da Comissão “nomeada para diligenciar a maneira de transformar a Irmandade numa Associação de Socorros Mútuos”, todavia não reúne o número legal de Irmãos e o assunto é transferido para a reunião seguinte.

A 25 de Setembro é realizada a nova reunião, na qual estão presentes 37 Irmãos e “servindo de Presidente, o Juiz Alexandre José Canuto e os secretários Armando Faria e Eduardo Bouça”. As opiniões dividem-se: uns querem manter-se como irmandade católica, continuando a assumir os encargos com o capelão e as missas e outros querem a transformação em uma associação de socorros mútuos. O Irmão António Joaquim dos Santos afirma que “estamos sobre um vulcão que podia muito bem ir pelos ares a casa onde estamos, de um momento para o outro podem-nos mandar sair, e para onde averiamos de ir, isto de culto nada tem valor para os nossos interesses e opta pela transformação em associação”. Em oposição, o Irmão Sebastião Nunes, enquanto elemento da Comissão, afirma “as missas quotidianas nos traz um encargo bastante grande, no entanto não vê como a reforma pode remediar esse mal, suprimindo as missas por uma festa anual”. O Irmão Guilherme Júlio d’Almeida dizia ser falsa a afirmação que “a Irmandade era humilhada por qualquer autoridade do Arsenal” e asseverava que a Irmandade continua a ter o mesmo prestígio e a mesma autoridade. (Cota: Livro 9.º das Deliberações da Direcção da Irmandade dos Carpinteiros Navaes, erecta na sua antiga ermida de S. Roque no Arsenal da Marinha)

Com a implantação da República cessou o culto na Capela. Neste ano, a Irmandade tinha 56 Irmãos, na sua maioria operários aposentados.

Na imprensa divulga-se:

Arsenal da Marinha. A Irmandade de S. Roque erecta na ermida d’aquelle estabelecimento hade receber, no dia 3 do corrente, o Lausperene, sendo as festividades com missa e música vocal e instrumental, começando às 11 ½ da manhã festa á Senhora das Dores, e á tarde às 7 horas, terço de Benditos.

Dia 4, festa a S. Roque, orago; de tarde às 6 ½, Te Deum instrumental. Dia 5, solemnidade ao Menino Jesus dos Aflitos, em seguida reposição ao Sacramento. Assiste a estas festas, por já estar restabelecido da grave doença a que foi acometido, o sr. José Joaquim dos Prazeres, hábil contramestre das construções navaes do mesmo arsenal e juiz daquela irmandade, que é só composta de operários carpinteiros da referida classe." (Diário de Noticias, 1 de Setembro de 1881, p.1).

O Compromisso da Irmandade de São Roque erecta na sua Ermida no Arsenal da Marinha é aprovado em Junta Grande, na casa de despacho da Irmandade, a 1 de Agosto e tem as assinaturas de 28 Irmãos e dos elementos da Mesa:

  • Juiz - Henrique Carlos da Conceição
  • Assistente do Juiz - Pedro Gomes
  • 1.º Secretário - João Gomes Bastos
  • 2.º Secretário - Joaquim José Balazar
  • Tesoureiro - Francisco Rodrigues da Conceição
  • Procurador da Irmandade - José Maria
  • Procurador da Mesa - Manoel de Sousa
  • Enfermeiro do Bairro Alto - João Baptista
  • Enfermeiro do Bairro de Alfama - António Joaquim Martins

Os Estatutos são aprovados por Carta Régia de 7 de Abril de 1865.

 

Início do agravamento financeiro da Irmandade e os Irmãos manifestam a necessidade de se rever o Compromisso e dotar o futuro regulamento de maior eficácia. A frágil situação financeira mantém-se nos anos seguintes e, no ano de 1843, é vendida a banqueta de prata com o objetivo de obter maiores recursos para as suas ações de assistência. Nesse ano é assinada uma petição dirigida á Rainha, onde se solicitava a escusa da Irmandade apresentar as suas contas à administração civil. O documento é assinado por 60 Irmãos, que consideravam que a Irmandade “não é do povo como as demais, pois nela só podem entrar os Mestres e oficiais de Carpinteiros de Machado. É privada e particular e está sujeita á autoridade do Arsenal e não recebe legados” (cota: 6750: 6 xxxviii-2-5).

A Irmandade agradece ao engenheiro construtor Manoel Luiz dos Santos, os trabalhos realizados e entrega uma carta patente de Irmão. Esta distinção também é atribuída ao construtor Torquato Joze Clanina e ao Mestre Julião Pereira de Sá (Cota: 6750: 6 xxxviii-2-5). 

 

Realização do Inventário de todos os bens, fabrica e ornamentos de S. Roque do anno 1805, p.ª diante (cota: 6-XXXVIII-3-1).

Pagamento do silhar de azulejos da Capela de S. Roque com cenas da vida de São Roque.

 

 

pormenor painel retiro floresta“Retiro na floresta”. Pormenor de um dos painéis historiados com os passos da vida de São Roque

A Mesa é constituída por:

Procurador João António Santos
Assistente Joaquim dos Santos
Procurador da Irmandade José António Sousa
Secretario José Diogo
Tesoureiro Paulo Gomes Correia

A Irmandade tinha por fins o “Culto a Deus debaixo da Protecção de S. Roque socorro Mantos dos seus Irmãos Pobres a sim foi Instituída como confraria – Anno de 1506= no Reinado de El Rei D. Manuel por – a – corporação dos Carpinteiros de Machado em huma Ermida que os dittos fizerão a sua custa no sitio em que hoje se acha a igreja de S. Roque desta cidade dedicado ao mesmo santo a qual tomarão por Protetor / organizada, e confirmada como Irmandade em o anno de 1570= no Convento de N. Sr. do Carmo de Lx.ª a donde esteve athe ao therramoto de 1755= e desde então athe hoje na sua Ermida dentro do Arcenal da Marinha cuja lhe mandou fazer e doou a esta Irmandade El Rei D. Joze 1º”.

Os rendimentos certos provinham dos anuais dos Irmãos e do juro do dinheiro aplicado. Não possuíam legados ou donativos se não os seus. Aplicavam os seus rendimentos em duas grandes áreas: o culto e o socorro dos Irmãos pobres. As despesas com o apoio aos Irmãos são aplicadas com o Cirurgião e Botica, e com a entrega de um subsídio diário de 240 réis a 320 réis aos Irmãos e de 160 réis às Irmãs.

O advogado António de Freitas e Azevedo escreve, a pedido da Mesa da Irmandade, as Memorias Históricas da Real Irmandade do Gloriozo S. Roque dos Carpinteiros de Machado. Estabelecida na sua Capela do Real Arsenal da Rib.ª das Naus.

 

 

protocolo procissoes acompanhamento funeraisProtocolo para as procissões ou acompanhamento de funerais segundo as determinações estabelecidas no Compromisso de 1777

A Irmandade manda imprimir a Novena ao Glorioso São Roque “e será muito do agrado de Deos Se faça nos dias, que finalizemm naquelle da sua festividade, porque pella sua intercessão serão livres do contagiozo mal do pecado, e conseguirão a eterna Gloria” (AZEVEDO, António de Freitas e, 1781).

A 25 de Maio é aprovado um novo Compromisso, que vem substituir o primitivo documento que desapareceu com o Terramoto de 1755.

Nos seus 21 capítulos expressam-se os deveres dos Irmãos: «Pagar o anual; Socorrer os Irmãos pobres com uma esmola e prover a visitação pelo enfermeiro; Todo o Irmão que embarcar em Navio, Nau, Fragatas ou outro navio de S. Magestade deve dar 200 rs por cada viagem ao Brasil e 400rs se for a Goa; Missas pelos defuntos e benfeitores; Aplicar o dinheiro a juro para o resgate de cativos e para o socorro das viúvas e órfãos; Proceder à eleição no último Domingo do mês de Julho».

 

 

protocolo lugares irmaos mesaProtocolo de lugares dos Irmãos da Mesa segundo as determinações estabelecidas no Compromisso de 1777

A Capela é consagrada (provisão de 9 de Julho) pelo Patriarca D. Francisco Saldanha da Gama, segundo o documento que está no Livro de Registos de Provisões de 1760-1766, e são atribuídos os privilégios ao Altar desta Capela “para que a Missa que nelles se celebrar por qualquer Sacerdote Secular ou Regular”. A Ermida é benzida pelo Pároco do Distrito.

Na Capela, os ofícios semanais celebravam-se à hora do almoço, para que, além dos confrades, todos os oficiais da Ribeira pudessem participar.

A festa de São Roque realizava-se a 16 de Agosto, com manifestações de zelo por parte dos Irmãos que promoviam a aquisição de alfaias para uso e adorno da Capela.

No século seguinte é adquirida uma “torre volante que athe agora tem servido no dia da festa com o nosso carrilhão (…)” de sinos. (Livro Segundo das Conferências e Actas da Mesa, cota: 6761, 2/23-6-XXXVIII-2-5).

Realização do inventário de todos os bens da Capela e dependências entregues à Irmandade. 

retabulo capela sao roqueAltar da Capela de São Roque com a pintura de São Roque, da autoria de José da Costa Negreiros (1714-1759), meados do século XVIII, óleo sobre telaO Arsenal é construído e lá dentro é ereta a Capela de São Roque, que apresenta características únicas: com 9,25 metros de comprimento, 6,40 metros de largura e15,30 metros de altura. O espaço da nave é marcado pela forte verticalidade, lançada de forma a induzir a admiração no observador, auxiliada pela luz que penetra através da fenestração lateral e da configuração do teto, que se apresenta em abóbada truncada. A decoração enuncia um espírito de transição do rocaille é é realizada por João Grossi (em 1769), que também é o autor dos estuques da Casa para as Audiencias do Ouvidor da Alfandega.

A capela tem duas portas laterais, uma de acesso ao púlpito (esquerda) e outra à sacristia (direita), destaca-se o janelão gradeado, ao nível do andar nobre e com acesso à Casa de Despacho da Irmandade, cuja obra é realizada em 1861/863, por João Eloi de Mendonça, que também realiza a empreitada de abertura da serventia do coro pela sacristia e alargamento da tribuna na Casa de Despacho. 

sumario indulgenciasSumário das Indulgências atribuídas pelo Santo Padre à Confraria e à Capela de São Roque, em 1757É publicado o “Summario das graças, indulgencias, privilegios e liberdades, concedidas à Sacrosanta Igreja Lateranense pelo Santo Padre, e Santa Fé Apostólica, e comunicadas pelo reverendissimo cabido, e conegos della à Confraria, e Capella do Bemaventurado S. Roque. Erecta, e instituida na Igreja do Mosteiro de N. S. do Carmo desta cidade de Lisboa aos oficiais, irmãos, e confrades della; os quaes alcanção as indulgencias, e graças abaixo declaradas, visitando a capella da dita confraria, e que por causa da ruina do terramoto se acha estabelecida em a sua Ermida na Ribeira das Naos”.

 

 

Abertura do Livro dos Assentos dos Irmãos da Confraria de S. Roque, erecta, e instituída na Igreja do Mosteiro de Nossa Senhora do Carmo desta cidade de Lisboa, e por causa da ruína do Terramoto estabelecida hoje em a sua Ermida na Ribeira das Nãos, impresso na Oficina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno (Cota: 6727 6- XXXVIII 2-4).

Este livro é vulgarmente designado por «livro velho» e os assentos terminam a 25 de Maio de 1777. Nas margens dos assentos surgem as notas dos falecimentos dos mesmos confrades e nome das viúvas. Algumas destas mulheres são depois inscritas como Irmãs, a título de exemplo «Vitoria de Jesus de Macedo, viúva de Manuel G. ou de Bernarda Teresa Rosa, viúva de Pedro Miz. Rosa (assentos no ano de 1776)», sendo o registo formalizado em Sessão de Mesa.

 

 

No mesmo ano é aberto o novo Livro dos Assentos dos Irmãos da Confraria de S. Roque, erecta, e instituída na Igreja do Mosteiro de Nossa Senhora do Carmo desta cidade de Lisboa, e por causa da ruína do Terramoto estabelecida hoje em a sua Ermida na ribeira das Náos, novamente impresso na Oficina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno (Cota: 6728- 6- XXXVIII 2-4).

Este Livro segundo dos Assentos é realizado porque se colocam inúmeras dúvidas acerca do livro anterior, como é referido na folha de rosto deste novo livro em que se afirma que os Irmãos “apareceram a buscar as suas patentes que teve o seu princípio em 25 de Maio de 1777”. O primeiro assento é de 28 de Outubro de 1757 e o último registo de 14 de Outubro de 1919. 

 

O Real Arsenal é reconstruído nos terrenos onde se situava a Ribeira das Naus, sendo necessário fazer demolições para obtenção de mais espaço. Os novos planos dos edifícios da Alfândega, do Arsenal, da Ribeira das Naus e da Fábrica do Tabaco são riscados pelo arquiteto e engenheiro militar Eugénio dos Santos (1711-1760). A Irmandade pede ao rei D. José I para edificar uma capela dentro da Ribeira das Naus, o que foi autorizado em 1756 (pela Provisão de 22 de Fevereiro). O Alvará 6 de Março autoriza os Carpinteiros da Ribeira das Naus a edificar uma “barraca de madeira” para capela dedicada a São Roque, que funciona entre 1756 e 1760, quando é demolida, porque estava já construída a definitiva capela em alvenaria de “pedra e cal”.

O Convento do Carmo e a Igreja ficam danificados na sequência do terramoto e a Irmandade perde grande parte dos seus bens, tendo apenas recuperado dos escombros “a cabeça da imagem do Gloriozo S. Roque, com seu resplendor de prata, que é a que ainda se venera hoje, pois se lhe mandou fazer um corpo, e acharam dois anjos de madeira, quatro castiçais de prata Lizos, e alguma prata queimada, que pezou duas arrobas, e vinte arráteis, (…)”. Também recuperaram uma outra imagem pequena de São Roque porque esta estava na casa do Marquês de Abrantes, “porque costumavão os Fidalgos nas occaziões de doença mandarem buscar a dita Imagem, pela grande devoção, que tributavão ao mesmo Santo (…)” (FREITAS E AZEVEDO, 1781).

Reforma estatutária e publicação do novo Compromisso da devotíssima Irmandade do Bemaventurado e Glorioso S. Roque, sita no Real Convento de Nossa Senhora do Monte do Carmo.

Fr. Manoel de Sá, O.C. escreve as Memorias Historicas Da Ordem de Nossa Senhora do Carmo da Província de Portugal. Parte primeira, que entregou na Academia Real da História Portuguesa e ao Reverendissimo Fr. Gaspar Pizolante, impresso na Off. de Joseph Antonio da Sylva.

 

A Irmandade obtém uma Provisão que é passada pela Mesa de Consciência e Ordens, com o objetivo de criar um fundo de mil e quinhentos réis para ser aplicado no resgate dos Irmãos que ficassem cativos na “terra de Mouros”.

O Juiz da Irmandade é D. Fernando de Mascarenhas (2.º Marquês de Fronteira), Vedor da Fazenda da Repartição dos Armazéns e Censor da Academia Real de História Portuguesa e elementos do Conselho de Estado do rei D. João V.

A Irmandade de São Roque recebe da Sacrosanta Igreja Laternanense da Cidade de Roma, uma “Bulla Apostolica dos indultos, graças, e indulgencias, e privilegios, assim espirituais, como temporaes” para a “salvação e saúde das almas dos fiéis Christãos”. O conteúdo desta Bula é traduzido para a língua portuguesa e publicado em 17 Março, sob o título de Summario das Graças, Indulgencias, Privilegios, e Liberdades. 

O Compromisso é aprovado em 9 de Dezembro, pelo Arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida. Neste documento é autorizada a existência de uma pensão destinada ao auxílio dos Irmãos pobres, doentes e suas respectivas famílias, bem como a criação de um fundo financeiro especial dirigido a pagar o resgate dos Irmãos que fossem captivos pelos “mouros”.

Os Irmãos usam vestes brancas, capas pardas e murças pretas com os seus Capelinhos e “nas mangas da Crus de acompanhar, e as Murças traziam bordadas as Armas Reas, de cuja demonstração se patenteia ser a dita Irmandade de protecção Real” (Fr. Manoel de Sá, Memorias Historicas Da Ordem de Nossa Senhora do Carmo da Província de Portugal. Parte primeira, que entregou na Academia Real da História Portuguesa e ao Reverendissimo Fr. Gaspar Pizolante, Lisboa Occidental, Off. de Joseph Antonio da Sylva, p. 125).

A capa usada pelos confrades manteve as mesmas características, pelo menos até 1911, como consta a referência descrita na “Cópia da Narração Histórica”, que foi anexa ao Auto de Diligência da Capela de São Roque, com data de 1911.

Instituição da Real Irmandade do Glorioso S. Roque dos Carpinteiros de Machado, por um grupo de Irmãos “com os seus filhos e parentes da mesma ocupação”. A sede da Irmandade passa a ser um altar que é construído junto à porta da Igreja do Convento do Carmo, onde “havião dous vãos; hum da parte direita, e outro da esquerda, em que não havião Altares, por lhe ficar junto de encontro a escada, que descia para a mesma Igreja com bastantes degráos, e seria esta a cauza, porque o grande Condestavel naquelles dous vãos não mandou edificar Altares, o que com evidencia se prova, pois se naquelle citio houvesse Capella de outra Imagem, sempre esta se havia de conservar; segundo a forma do costume, no painel do Retabulo, e como a Cappella, que havia naqulle citio, não tinha outro painel, senão o de S. Roque, nem outro Santo de vulto, hé consequência de que a dita Capela foi fabricada de novo para o dito Santo, e que não havia outra naquelle Lugar, que fosse mais antiga (…)”.

O Retábulo do Altar tem um “painel, em que servia de hua, e de outra parte pintados varios feridos de peste, lançados em cama, de baixo de barracas, e no meio, em lugar mais alto S. Roque, cujo painel, segundo a tradição de alguns Religiozos antigos foi feito por aquelle grande pintor Portuguez chamado Bento Coelho, que floreceo neste tempo e não no de 147 annos antes (…)” (FREITAS E AZEVEDO, 1781). 

Na sequência do contrato para entrega da Ermida de São Roque à Companhia de Jesus, o conjunto de oficiais de Carpinteiro de Machado abandonam esta confraria e pedem aos religiosos do Convento do Carmo autorização para construírem um altar dedicado a São Roque, o que é concedido: “passados 147 annos, depois de estarem os Religiosos na posse da dita Igreja, he provavelmente certo, que aquelles Carpinteiros Velhos, propagadores da devoção do dito Santo, e seus confrades escandelizados da Convenção, que os outros tinhão feito no anno de 1553, com os Jesuítas, sem os ouvirem, sendo membros do mesmo corpo, não esfriando na devoção, juntos com os filhos e parentes da mesma occupação, peditão aos ditos Religiosos o vão, para ali fabricarem Altar do dito Santo…” (FREITAS E AZEVEDO, 1781).

Um grupo de homens com o ofício de Carpinteiro de Machado integra a confraria de São Roque.

 

Bibliografia

GOMES, A. Sousa – Carpinteiros da Ribeira das Naus. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1931

GUIMARÃES, Maria Luísa de Oliveira - A Capela de São Roque do Arsenal da Ribeira das Naus. Lisboa: Edições culturais da Marinha, 2006

LOUREIRO, Carlos Gomes Amorim - Estaleiros Navais Portugueses. Arsenal da Marinha. Lisboa: […], 1960.

 

Fontes

Brandão, Mateus de Assunção, O.S.B. (1778?-1837) - Novena do glorioso S. Roque. Por Occasião da Epidemia Cholera-Morbus no anno de 1832. Offerecida e Celebrada pela Real Irmandade de S. Roque de Lisboa sendo seu Provedor Perpetuo El Rei Nosso Senhor, o Senhor D. Miguel I..Lisboa: Impressão Regia, 1832 (gravura de São Roque, datada de 1800) 

Novena do Glorioso S. Roque, advogado contra a peste.Offerecida e Celebrada pela Sua Real Irmandade sita na Egreja e Santa Casa da Misericórdia sendo Provedora Perpetua Sua Magestade Fidelissima. Lisboa: Typ. José Baptista Morando, 1850

Novena do glorioso S. Roque advogado contra a peste,... : seguida da oração a S. Sebastião(...) contra o terrivel flagello da cholera-morbus. Coimbra: Imp. da Universidade, 1856

S. ANNA, P. Fr. Belchior de - Chronica de Carmelitas Descalços, particular do Reyno de Portugal, e Provincia de Sam Felippe: I. [-III] tomo. Lisboa: na Officina de Henrique Valente de Oliveira, 1657-[1753]

 

Arquivo Digital, Ministério das Finanças

São Julião. http. 213.58.158.153/Arquivo-CJBC-LIS-LIS—AROOL—024/1/P24.html (acedido em 19-04-2010; 14-02-2012)

 

Biblioteca e Arquivo Central de Marinha Marinha

6727 Livro dos assentos dos Irmãos 1vol. 1757/1777  cota 6-XXXVIII-2-4

6746 Memorias Históricas da Real Irmandade de S. Roque 1781/791 cota 6-XXXVIII-2-5

6748 Documentos diversos 1783/874 cota 6-XXXVIII-2-5

6749 Livro 2.º dos termos e acordos 1787/825 cota 6-XXXVIII-2-5

6750 Papeis avulsos muito antigos 1787/825 cota 6-XXXVIII-2-5

6751 Inventário dos bens e ornamentos de S. Roque 1805 cota 6-XXXVIII-2-5

6770 Livro de Obras da Capela em 1835 cota 2/23-6-XXXVIII-2-5

6773 Exposição a que deu origem à nossa reforma 1835 cota 6-XXXVIII-2-5

6790 Livro 1.º de correspondência particular da Irmandade 1881/93 cota 6-XXXVIII-2-5

 

Biblioteca Nacional de Portugal

Iconografia - Colecção de Estampas Devotas (São Roque -  cotas 01715; 01716)

 

Levantamento Fotográfico da Capela de São Roque, Arsenal

João Pécurto /SCML 

 

Helena Gonçalves Pinto
Historiadora