A Europa descobre, em pleno século XV, um exemplo de caridade na figura de Roque: um peregrino dedicado aos desamparados na angústia das enfermidades.

Rapidamente Roque é o santo invocado pelo populus, sobretudo nos momentos de calamidades, tornando-se um exemplo pelos gestos de solidariedade e de caridade máxima, ao expor-se ao perigo de contágio ao dedicar-se ao cuidado dos doentes, principalmente dos mais desprotegidos e rejeitados.

 

Em breve se multiplicaram os gestos de comunhão mais explícita do povo com o seu Santo, uns buscando a proteção e outros agradecendo as curas alcançadas por sua intercessão. Em Lisboa, junto da Ermida de São Roque, existiam umas casas térreas em que se “recolhia o capellam do Sancto e o ermitam, e outra que servia a alguma pessoa devota que vinha fazer novena ao Sancto” (“História dos Mosteiros Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, 1962, p.220). Deste modo, todos os anos, o ato de compromisso era renovado, mantendo-se vivas a prática e as obrigações que eram assumidas em comunidade. Na base deste compromisso está o Evangelho de Cristo, reanimado diariamente na partilha e na dedicação aos outros, renovando a prática de misericórdia: de dar como forma de entrega.

A Novena fazia parte das celebrações em honra do Santo, que incluíam as Vésperas Solenes e no dia do Santo, uma Liturgia particular com introito, oração, epistola, evangelho, acompanhada de música e de cânticos.

Em 1734 foi impressa em Lisboa, por Joseph Antonio da Silva, uma “Novena do Glorioso de S. Roque, advogado contra a peste, ou outro qualquer mal Epidemico, e contagioso, especialmente de bexigas”. Durante o século XIX serão realizadas novas edições da Novena sob o patrocínio da Irmandade de São Roque e de outros mecenas e editores particulares, quase sempre acompanhando os ciclos epidémicos que assolaram Portugal. Deste período, ganhou difusão a “Novena do Glorioso S. Roque por ocasião da epidemia Cholera-Morbus no anno de 1832”, que inclui uma gravura de São Roque datada de 1800, que a Irmandade encomenda a Fr. Mattheus da Assumpção Brandão (1778-1837), o qual acabaria por assumir um vínculo com a Irmandade, assumindo compromisso a 15 de Agosto de 1831.

A obra musical foi entregue a Fr. José de Santa Rita Marques e Silva (1782-1837), considerada uma das mais importantes figuras da época no domínio da música sacra em Lisboa, que igualmente se tornaria Irmão de São Roque, com compromisso datado de 15 de Agosto de 1832.

A Novena de São Roque que recuperámos para as festas de São Roque, desde o ano de 2006, é uma versão atualizada do texto de 1832, que procura divulgar as práticas da misericórdia que é exercida sem esperar retribuição: dar como forma de partilhar.


Helena Gonçalves Pinto
Historiadora

 

As Orações de cada dia da Novena