Quem vê televisão ou lê jornais fica com a impressão de que, na maior parte do tempo e na maior parte do mundo, só há ódio, raiva e luta para dar ao próximo. São as guerras, os atentados-suicidas, os crimes de sangue, os filmes de violência, a pancadaria com a polícia, os protestos cheios de insultos, as ofensas aos políticos ou dos políticos aos políticos, enfim, um rol interminável de agressões à eminente dignidade da pessoa humana.

Será que uma sociedade de irmãos é impossível? Que já ninguém goste de ninguém? A vida no pequeno universo português deixa-nos a esperança de que não é bemassim.

A nossa tradicional cultura de amor ao próximo ainda resiste. É pouco falada, não grita, não enche primeiras páginas mas existe e está no terreno, com força.

Ainda são muitos os que tomam como opção de vida viver apenas para o bem do próximo, como sucede com os sacerdotes e os que se realizam nas Ordens e Congregações Religiosas.

E são muitos mais os que, sem abdicar da vida corrente, tomam a opção de dedicar parte importante do seu tempo ao serviço do próximo. Destes, o maior contingente está nas cerca de quatrocentas Misericórdias, espalhadas pelo País.

Nelas, vive-se o espírito original de 1498. D. António Rafael, que foi Bispo de Vila Real nos anos oitenta, dizia que as Misericórdia são o rosto português dos Evangelhos.

A matriz está na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde mais de cinco mil homens e mulheres a levam nos seus braços. Por vezes, é honrada para além do exigível, com sacrifícios só compensados pelo amor que se tem ao seu próximo.

Numa das reuniões “Ao Fim da Tarde em São Roque”, o Irmão Ernâni Lopes, falando sobre Economia Social, ensinava que a violenta transformação social que o mundo começa agora a sofrer, em Portugal será amortecida e suavizada porque temos uma rede de Misericórdias que está, naturalmente, vocacionada e preparada para ela.

Este trunfo mais nenhum país possui.

E isto porque o espírito que está na origem das Misericórdias não foi subvertido ao longo dos séculos, nem caiu em desuso.
Se conseguirmos suportar melhor que os outros as convulsões que aí vêm, é às Misericórdias que devemos agradecer. Será, uma vez mais, o triunfo do amor pelo próximo, que Cristo nos ensinou.